A economia prateada cresce com a expansão da população mais velha no Brasil. Em 2025, o país tinha 35,2 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) citados pela FecomercioSP.
A mudança demográfica altera a composição dos domicílios e os padrões de consumo. Estimativas da FecomercioSP, elaboradas com base na Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), do IBGE, analisam como essa transformação afeta as famílias brasileiras.
Consumidores com 50 anos ou mais e empresas de diferentes setores estão no centro dessa mudança. Entre os especialistas ouvidos estão Kelly Carvalho, assessora econômica da FecomercioSP, e Luiz Augusto Zazeri, coordenador de curso no Centro Universitário Senac — Santo Amaro, em São Paulo.

Os dados do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) indicam que o público com mais de 60 anos movimentou a economia brasileira em 2024. A pauta também aborda atendimento presencial e digital, oportunidades em serviços e os efeitos do preconceito etário, com referência à pesquisa TIC Domicílios 2025, do Cetic.br.
Envelhecimento da população muda famílias e padrões de consumo
A participação das pessoas com 60 anos ou mais na população brasileira passou de 11,3% em 2012 para 16,6% em 2025, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A mudança altera a composição dos domicílios e a distribuição da demanda entre diferentes categorias de consumo.
Projeções do IBGE indicam que, até 2070, o país poderá ter 75,3 milhões de pessoas idosas, equivalentes a 37,8% da população. A expansão prevista ajuda a dimensionar como a longevidade pode influenciar famílias, empresas e a economia prateada nas próximas décadas.
Estimativas da FecomercioSP, baseadas na Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), apontam que a proporção de famílias chefiadas por pessoas com 60 anos ou mais deve avançar de 23,5% na década de 2020 para mais de 50% em 2060. Kelly Carvalho, assessora econômica da entidade, observa que esses domicílios podem reunir várias gerações ou ser formados por pessoas idosas que vivem sozinhas.
As despesas também devem crescer em ritmos diferentes entre 2020 e 2060. Segundo as estimativas da FecomercioSP, gastos com planos e serviços de saúde devem aumentar 190%, ante 108% do consumo total; habitação tem projeção de alta de cerca de 130%, enquanto educação avançaria 44%.
Atendimento híbrido aproxima empresas do público 50+
A experiência de compras durante a pandemia levou muitos consumidores mais velhos a aprender a comprar pela internet e apreciar a comodidade. Isso não significa, porém, que prefiram resolver toda situação por canais digitais ou que devam ficar sem alternativas presenciais.
Kelly Carvalho, assessora econômica da FecomercioSP, descreve um público que usa aplicativos bancários e consome conteúdos pela internet, mas pode preferir conversar com uma pessoa em determinadas situações. Para ela, canais automatizados e humanos podem coexistir, inclusive em lojas que oferecem self checkout e mantêm caixas atendidos por funcionários.
A integração de canais pode exigir investimentos, especialmente de comerciantes menores, que podem ter mais dificuldade para aplicar recursos em tecnologia. Kelly recomenda que esses negócios aproveitem a proximidade com os clientes para compreender necessidades concretas, como a forma de realizar uma entrega, e ofereçam atendimento humanizado.
Saúde, moradia e trabalho abrem frentes de negócio
Na saúde, Kelly Carvalho, da FecomercioSP, aponta oportunidades que vão além de consultas e tratamentos de doenças. A área inclui cuidados de longo prazo, prevenção e suplementação alimentar com produtos específicos para a idade, embora a assessora ressalte que a saúde também é um direito cuja garantia cabe ao Estado.
Na habitação, as possibilidades citadas incluem empreendimentos de senior living, com assistência médica e outros serviços, além de adaptações nas moradias para favorecer mobilidade e acessibilidade. São respostas diferentes às necessidades de pessoas que envelhecem, sem pressupor que todas precisem do mesmo tipo de suporte.
Luiz Augusto Zazeri, coordenador do curso de Tecnologia em Gestão Financeira no Centro Universitário Senac — Santo Amaro, menciona academias com aulas e treinos específicos, salões de beleza, serviços financeiros e turismo. Em destinos religiosos, segundo ele, pessoas maduras já representam mais de 70% do público em alguns lugares.
O trabalho também integra as oportunidades associadas à longevidade. Zazeri afirma que empresas, sobretudo multinacionais, têm reconhecido a experiência de profissionais mais velhos e cita pesquisas que indicam menor rotatividade entre esses trabalhadores do que entre jovens; as contratações podem ampliar o poder aquisitivo das famílias.
Diversidade e combate ao preconceito orientam soluções para a longevidade
Apesar do crescimento desse mercado, pessoas mais velhas podem ficar fora das decisões empresariais por causa da chamada cegueira etária. Cristián Sepúlveda, CEO da Silver Hub, aceleradora de startups voltadas à longevidade, afirma que o preconceito influencia a escolha de segmentos nos quais as empresas decidem investir.
O setor brasileiro de *agetechs* ainda é pequeno: Sepúlveda estima que haja cerca de 350 empresas desse tipo no país. Como comparação, ele cita fundos de capital de risco nos Estados Unidos que investem US$ 5 bilhões em negócios ligados à longevidade; a Silver Hub apoia nove projetos voltados ao público 50+.
Sepúlveda defende que as soluções considerem diferenças de renda, escolaridade, território, composição familiar, patrimônio e autonomia. Pessoas com mais idade podem estar trabalhando ou aposentadas, viver com independência ou precisar de apoio da família, por isso a participação desse público na pesquisa e no desenvolvimento de produtos ajuda a identificar necessidades reais.
Aspectos como redução da visão e da audição também precisam ser considerados no desenho de serviços e produtos, segundo o CEO da Silver Hub. Na pesquisa TIC Domicílios 2025, do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), 81% dos usuários de internet com 60 anos ou mais acessavam a rede pelo celular sem usar computador, dado que evidencia o uso de telas pequenas e a necessidade de interfaces legíveis e simples.


