Uma vitrine com manequins negros em posições de serviço a manequins brancos gerou questionamentos sobre representação racial em São Paulo. A cena foi montada em uma loja de vestidos de festa da Arthur Caliman.
Segundo reportagem publicada em 4 de novembro de 2026, a composição mostrava figuras negras com aventais ao lado de manequins brancos vestidos para festas. A disposição motivou uma representação no Ministério Público de São Paulo (MPSP).
O caso envolve a unidade da Arthur Caliman na Avenida Santo Amaro, na Zona Sul da capital paulista. A representação foi protocolada em 3 de novembro e encaminhada para análise da Promotoria de Justiça dos Direitos Humanos – Inclusão Social.

Advogados e representantes de entidades de combate ao racismo criticaram a cena, enquanto a empresa afirmou que não pretendia transmitir mensagem racial. A apuração também registra a mudança feita pela loja após o contato da reportagem.
Críticas à representação racial na vitrine
O advogado Hédio Silva Jr., fundador do Jusracial, avaliou que a cena associava pessoas negras a uma posição de subordinação, com figuras de avental simulando atender manequins brancos. Para ele, a composição reproduzia a ideia racista de que a população negra estaria destinada a servir pessoas brancas.
Silva Jr. afirmou que a disposição também atribui lugares sociais com base em uma suposta inferioridade racial. Na avaliação do advogado, a imagem pode induzir ou encorajar a discriminação, e ele a classificou como um crime racial.
Mestre em Direito Processual Penal e doutor em Direito Constitucional pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, o advogado atua há 40 anos no Movimento Negro. A reportagem também registra que ele trabalha há mais de 28 anos na defesa da igualdade racial e dos direitos das religiões afro-brasileiras, além de ter atuado em casos no Supremo Tribunal Federal.
Interpretações sobre a hierarquia racial
Para Manuela Thamani, diretora executiva do Observatório da Branquitude, a vitrine não representava apenas um erro de composição. Ela afirmou que os manequins de pele clara apareciam em vestidos de festa, ligados à celebração e ao prestígio, enquanto os negros estavam de avental, em posição de serviço.
Thamani relacionou a cena a uma hierarquia racial que, segundo ela, estrutura a sociedade brasileira desde a escravidão. A diretora também observou que vitrines comunicam sentidos por meio da organização dos produtos e dos elementos expostos, sem depender de mensagens escritas.
Ao comentar a escolha da marca, ela disse que a composição indicava quem ocuparia o lugar do luxo e quem seria imaginado como cliente. Thamani citou a intelectual Grada Kilomba e a ideia de que o racismo cotidiano atualiza memórias coloniais; também defendeu que a empresa reconheça o racismo e assuma compromissos concretos de mudança.
Representação no MPSP e resposta da loja
Em nota, a Arthur Caliman afirmou que a seleção dos manequins varia e costuma buscar contraste com as roupas expostas. A empresa disse que, na composição questionada, a combinação de bonecos pretos com trajes brancos e de um manequim branco com vestido azul-escuro tinha esse objetivo.
A loja informou que a vitrine anterior era formada apenas por manequins pretos com vestidos claros. Também declarou que não teve intenção de transmitir uma mensagem racial e lamentou o desconforto provocado pela montagem.
Após receber o contato da reportagem, a empresa substituiu um dos manequins da vitrine. A representação protocolada no Ministério Público de São Paulo (MPSP) permanece sob análise da Promotoria de Justiça dos Direitos Humanos – Inclusão Social, conforme as informações divulgadas sobre o caso.


